Grandes inventores, empreendedores geniais e profissionais inovadores têm em comum o fato de estarem sempre atentos ao mundo em busca de soluções. São aquelas pessoas que percebem algo e já pensam “será que tem um jeito melhor de fazer isso?”.

André Caxito e Sérgio Couto estavam na fila para comprar lanches em um estádio de futebol quando tiveram a ideia de criar um aplicativo para ajudar jovens a comerem melhor na escola. Milton Mitidieri foi vítima de um golpe e, se perguntando como proteger outras pessoas do mesmo problema, inventou um app de segurança. Como podemos, então, potencializar esses momentos? Como podemos cultivar e praticar a criatividade? Como poder ter a mente sempre aberta para novas possibilidades?

Para começo de conversa, vamos tirar logo um problema do caminho. Costumamos achar que os grandes pensadores e criadores são pessoas dotadas de talento acima da média. Imaginamos que por serem melhores que o resto de nós, simples mortais, essas figuras históricas tiveram suas ideias revolucionárias assim, pluft, do nada. Não é bem assim.

O contexto é tão importante para a criatividade quanto a capacidade individual de inovar. Então, ser criativo é algo que pode ser aprendido, treinado e maximizado. É algo que está ao alcance de todos nós.

Não existem lâmpadas ou musas

O escritor especialista em neurociência Jonah Lehrer estudou como as ideias surgem no nosso cérebro. O resultado desse trabalho é o livro “Imagine — How Creativity Works”. O autor explica que, por muitos séculos, a humanidade atribuiu a criatividade a algo místico, divino até.

“Nossa própria dificuldade em entender como a criatividade acontece, mesmo quando ela acontece conosco, significa que nós, frequentemente, associamos grandes ideias a uma força externa. Na verdade, até o Iluminismo, a imaginação era totalmente sinônima de poderes superiores. Ser criativo significava se conectar a musas, ou dar voz a deuses. Isso acontecia porque as pessoas não entendiam a criatividade, então achavam que suas melhores ideias estavam vindo de outro lugar. A imaginação era terceirizada”, conta Leher.

Hoje sabemos que nenhum ser mágico acende aquela lâmpada sobre nossas cabeças e nenhuma divindade nos visita para nos dar inspiração. Então, como ter grandes ideias?

A fórmula mágica da criatividade

Quer ser criativo de forma fácil e rápida? Nós temos a fórmula.

Brincadeira.

A equação da criatividade até existe, mas ela não é tão simples assim. Anota aí: Criatividade é a soma de repertório com experimentação. As grandes ideias surgem quando nosso cérebro tem tempo e liberdade para brincar com os conhecimentos que colocamos dentro dele.

Uma das frases famosa de Steve Jobs é “criatividade é apenas conectar coisas”. Pois parece que ele estava certo. Em seus estudos, Leher concluiu que “em qualquer momento, o cérebro está, automaticamente, formando novas associações, continuamente conectando o corriqueiro x com o inesperado y”. Ele continua: “Nosso cérebro é simplesmente um nó infinito de conexões. Um pensamento criativo é somente essa rede se conectando consigo mesma de uma nova forma”. Essa é a parte da fórmula que diz respeito ao repertório.

Leher também explica a parte da experimentação. As pesquisas mostraram que, deixar a mente divagar é a melhor forma de romper um bloqueio e achar respostas. O conselho de Leher para quando o trabalho empaca é “saia da sua mesa”. Ele explica:

“Saia do escritório. Dê uma longa caminhada. Sonhe acordado. Encontre uma forma de relaxar. Os cientistas descobriram que quando uma pessoa está relaxada, elas estão muito mais propensas àqueles momentos de “a-ha!”, aqueles momentos de insight para problemas que pareciam impossíveis de resolver. Então, se você tiver um bloqueio criativo, a melhor coisa a se fazer é tomar um longo banho morno. A resposta vai aparecer quando você parar de procurar por ela”.

Então, o segredo para ser mais criativo no dia a dia e nos negócios é trabalhar as duas vertentes. Por um lado, encher a mente de referências lendo, pesquisando, conversando com pessoas, observando, assistindo a filmes e documentários, fazendo cursos ou viajando. De outro lado, dar ao cérebro a chance de misturar essas referências buscando conexões pouco usuais, trazendo pessoas de diferentes áreas para pensar o mesmo problema, pensando em soluções incomuns ou até mesmo se permitindo momentos de ócio.

Empatia como uma forma de ter boas ideias

Uma maneira interessante de colocar em prática a “fórmula” da criatividade é exercitando a empatia. O ato de buscar o entendimento da experiência de outra pessoa é uma forma de abrir nossa visão de mundo e colocar mais ideias para dentro da cachola.

Em suas aulas, Verônica Machado, jornalista e instrutora de empreendedorismo, propõe um exercício de empatia para gerar negócios. Ela fala que a melhor forma de criar um produto ou serviço que vai realmente impactar um cliente é perguntando para ele primeiro “como eu posso te ajudar?” e prestar muita atenção à resposta.

Lehrer diz que esse exercício é especialmente produtivo se buscarmos conversar com pessoas diferentes de nós.

“Nossa tendência natural é de ficar isolado, de falar apenas com quem se parece conosco ou fala nossa mesma linguagem particular e entende nossos problemas. Mas isso é um grande erro. É a fricção humana que causa faíscas”.

Falamos mais sobre como a empatia pode ser uma chave para melhorar o mundo e gerar negócios aqui

Melhor do que uma ideia perfeita, são várias ideias

Várias ideias surgirão naturalmente como resultado da iniciativa de se abrir para observar o mundo e compreender as pessoas. O truque é não esperar a sacada perfeita, mas sim, conseguir elaborar o maior número de soluções possíveis e fortalecer a capacidade de filtrar e burilar os insights. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche já dizia algo assim no livro Humano, Demasiadamente Humano.


“A imaginação de um bom artista ou pensador produz continuamente coisas boas, medíocres ou ruins, mas seu julgamento, muito bem treinado e aguçado rejeita, seleciona, conecta. Todo grande artista ou pensador são grandes trabalhadores, incansáveis não apenas na criação, mas também no ato de rejeitar, peneirar, transformar, organizar”.

O conselho serve para um pintor dos anos 1800s e também para um startupeiro do século XXI.

Em entrevista para o 4 Labs, um coletivo de jornalistas e pesquisadores, Shlomo Maital, explica bem essa dinâmica. Ele é professor e diretor acadêmico do Technion Institute of Management, o principal instituto de desenvolvimento de liderança executiva de Israel, e diz que usa duas etapas para resolver problemas. No primeiro momento, deixa as sinapses fluírem livres, no segundo, usa a racionalidade para decidir quais soluções devem ser usadas ou descartadas. “As ideias malucas juntam-se ao planejamento de negócios pragmáticos. Isso quase sempre requer uma equipe diversificada, com as duas habilidades. Poucos indivíduos possuem ambos.”

Ninguém é criativo sozinho

Para o escritor e desenhista Austin Kleon, não é possível ser criativo num vácuo. Ele defende que todos os grandes inventores e artistas da humanidade atingiram o sucesso porque estavam cercados de pessoas ou situações que propiciavam o surgimento das boas ideias. Eles faziam parte de um cenário de estímulos à criatividade. Kleon rejeita a palavra “genius” (gênio, em inglês). Ele prefere outro termo, inventado pelo músico Brian Eno: “scenius”, uma mistura de “genius” com “scene” (cena, em inglês)

O conselho de Kleon para quem quer ser mais criativo é simples: vá procurar sua turma. Busque associações, coletivos, sindicatos, clubes, qualquer forma de agrupamento que estimule a produção de todos os envolvidos e estabeleça um senso de cena cultural ou empresarial que fortaleça a criação de novos negócios.

Criatividade para resolver problemas

O Creative Gym, uma escola que oferece treinamentos de criatividade e inovação para empresas, ensina algumas técnicas para resolver problemas com originalidade em um negócio ou projeto:

  • Visualize contextos — Pense no mercado como um todo. Visualize e desenhe um mapa mostrando todos os aspectos da experiência do seu usuário. Depois, liste todas as operações da empresa que contribuem para essas experiências. “Só depois disso, começamos a pensar no problema”.
  • Olhe para o problema de outras formas — Tente imaginar todos os pontos de vista possíveis para a solução que você está tentando criar. Estude e compreenda bem as diferentes nuances do problema e as maneiras como ele é percebido pelas pessoas. “Nós então podemos transformar esses problemas em oportunidades”
  • Faça um brainstorm com as ideias mais ousadas — Faça experimentos com ferramentas que o faça sair do modo usual de pensar. Busque o lado bom das oportunidades. Pense nas soluções menos usuais e tente criar as respostas mais incomuns.
Divirta-se

Albert Einstein resumiu tudo dizendo que “criatividade é a inteligência se divertindo”. Valorizamos (corretamente) o estudo, a preparação, a pesquisa. Mas sabemos estimular também a diversão?

Numa série de vídeo sobre criatividade produzida pelo Meio e Mensagem, Mário Rosa, da Echos Laboratório de Inovação, fala sobre como “obrigar” nosso cérebro a sair do trilho racional e embarcar na viagem lúdica. Ele sugere algumas perguntas meio bobas, mas extremamente estimulantes, que podemos fazer a nós mesmos quando precisamos resolver um problema. Então, siga a dica dele e, da próxima vez que você quiser criar algo diferente, encare o desafio e se pergunte: O que um super-herói faria nesta situação? E o Dalai Lama?

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