Quando falamos de fracasso, encontramos rapidamente um paradoxo. Sabemos que para inovar ou criar algo novo, temos que correr certos riscos. Por outro lado, temos muito medo de errar. Como superar esse dilema?

Os clichês sobre “pensar fora da caixa” ou “sair da zona de conforto” afirmam que, para alcançar o sucesso, é preciso tentar algo que nunca foi feito antes. A inovação só existe na zona de “desconforto”, e ela é desconfortável porque lá os riscos são maiores.

Talvez, o primeiro passo para lidar com o paradoxo seja esse: entender que o fracasso é inevitável. A estrada para o sucesso tem, obrigatoriamente, uma parada (ou várias) na estação fracasso.

Seth Godin oferece um conforto. O consultor de marketing e autor de vários livros diz que “se você procura mudar ou faz algo importante, seu trabalho será rejeitado ao longo do caminho. Isso não está em discussão”.

O que ele quer dizer é que se a sua ideia for inovadora, provocadora, diferente, relevante, ou importante, ela será rejeitada. Pelo menos, inicialmente. Por mais que a aceitação fácil seja ótima, ela pode ser um indicativo que você está apenas repetindo o que já foi feito antes. Por outro lado, talvez as ideias mais rejeitadas, mais difíceis de emplacar, sejam, no final das contas, as mais interessantes.

Por que temos medo do fracasso?

Quando falamos de fracasso do que estamos falando? Quando não apresentamos uma ideia numa reunião ou engavetamos um projeto, que justificativa damos para nós mesmos?

A pesquisadora Brené Brown estuda e escreve sobre vulnerabilidade. Ela se especializou em entender do que as pessoas têm medo e como ajudá-las a superá-lo. Brené acha que o receio de fracassar é alimentado por nosso pavor (natural) de não sermos aceitos pelo grupo a qual pertencemos. “A maior barreira para ideias de negócio novas e originais é o temor daqueles que as têm. Temem que os colegas os ridicularizem, riam deles e os depreciem”.

Uma das formas de combatermos isso é criando ambientes profissionais nos quais as pessoas possam expor seus projetos (bons ou ruins) sem medo de rejeição.

“Quando a vulnerabilidade não é tolerada no local de trabalho, podemos esquecer a inovação, a criatividade e o comprometimento”, afirma Brené.

Outro obstáculo pode ser o fato de estarmos imersos numa cultura que destaca o resultado e não o processo para se chegar até lá. Vemos atletas ganhando medalhas, mas não vemos quantas horas eles passaram errando o arremesso, o chute ou o pulo.

O psicólogo Samuel West fundou o Museu do Fracasso para ajudar a quebrar o estigma sobre o erro.

“A ideia veio da frustração. Eu estava muito cansado de ouvir e ler a mesmas histórias sem graça sobre o sucesso, elas são todas iguais. É no fracasso que encontramos histórias interessantes, com as quais podemos aprender”, explica West no site da instituição.

O museu, que fica na Suécia, é uma coleção de produtos e serviços que não deram certo do mundo inteiro. O curador acredita que a inovação e o progresso requerem a aceitação do fracasso. Por isso, a missão do espaço é “estimular a discussão sobre o tema e inspirar-nos a ter a coragem de assumir riscos por algo importante”.

Como superar o medo de fracassar

Coragem é o antídoto que precisamos para vencer a relutância em se colocar “em risco”. Como colocá-la em prática?

Em seu livro Confiança Criativa, Tom Kelly, lembra da frase do escritor húngaro György Konrád: a coragem é o acúmulo de pequenos passos. Co-fundador do IDEO, um dos mais respeitados escritórios de design e inovação do mundo, Kelly diz que não devemos mirar direto na grande ideia revolucionária. Devemos focar em experimentos.

O designer explica que além de assustador, tentar chegar no produto final logo de cara é também pouco prático. É mais interessante trabalhar, experimentar e errar em pequenas partes do todo e encará-las como testes. Assim, de “teste” em “teste”, se chega ao objetivo final sem que a pressão de não fracassar seja paralisante e com chances maiores de corrigir as falhas que aparecerem durante o processo. Esse é o raciocínio por trás de protótipos e MVPs.

Saiba quais são os tipos de protótipo e quais os usos de cada um

Com milhões de views no YouTube, o programa Choque de Cultura é exatamente isso: a soma de várias ideias que os criadores tiveram mas que não foram assim tão bem sucedidas. Leandro Ramos, um dos atores do grupo, brinca: “[O programa] só é um sucesso porque foi projetado para ser um grande fracasso e, por engano, parece que deu certo. A gente coleciona fracassos. Deu errado aí deu certo”. O personagem Rogerinho do Ingá, que hoje comanda o Choque de Cultura, por exemplo, já tinha sido usado em outras produções, como o Último Programa do Mundo. O projeto levou uma belíssima porta na cara quando o canal onde era exibido encerrou as atividades alguns anos atrás.

O que fazer depois de um fracasso

O consultor e escritor Fred Alecrim alerta para os perigos de irmos para o outro extremo da conversa e passarmos a “glamourizar” o fracasso. Não devemos “fazer as coisas de qualquer jeito para errar logo”, celebrando os tombos no meio do caminho e seguindo em frente como se a queda automaticamente garantisse o sucesso mais adiante. Alecrim chama esse pensamento de “super valorização do erro”.

Para ele, é preciso estudar os fracassos e usá-los como instrumento de melhorias para os próximos passos. “O grande lance é ser produtivo quando um erro acontece e refletir sobre ele. Nesse mundo tão veloz, às vezes, a pessoa erra e já parte para outra sem entender porque aquilo aconteceu”, explica. É, mais uma vez, a lógica do protótipo, que prega um eterno ciclo de “implementar-medir-aprender-implementar”.

Alecrim dá algumas orientações de como agir de forma produtiva depois de um fracasso:

Solitude – “Acredito que a gente não aprende nem errando nem acertando, a gente aprende refletindo sobre os erros e acertos”. Para fazer esta avaliação, o consultor recomenda a solitude, ou seja, um momento a sós para pensar. Nessa reflexão, Alecrim sugere questionar-se sobre “o que fiz que me levou ao erro, o que eu deveria ter feito e não fiz?” e, a partir daí desenvolver um novo plano de ação.

Meditação – O consultor aposta na meditação como uma ferramenta de mindfulness, ou atenção plena. Para ele, esse tipo de atenção ajuda a ter uma visão mais clara de si e do está ao seu redor. “Ajuda a entender o que acontece com você e o que acontece com o mundo. Estando concentrado, com atenção plena, você pode evoluir e aumentar suas chances de acertar”.

O fracasso que vale a pena

Então é isso. Colocar uma ideia no mundo nunca será fácil. O jeito é programar os passos que serão necessários para o projeto ganhar vida, refletir sobre os erros e acertos que serão revelados a cada experimento, e continuar em frente no ciclo de criar, testar, aprender, e criar novamente.

Brené Brown diz que, mais de uma vez, viu na internet a seguinte pergunta motivacional: “o que você faria se soubesse que não iria fracassar?”. O questionamento nos ajuda a soltar a imaginação mas, para ela, não é muito útil. Como garantir uma vida sem falhas? Isso não é muito realista. Então, ela deixa uma provocação.

Pergunte-se: “o que vale a pena fazer mesmo que eu fracasse?”

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Livro de Brené Brown sobre vulnerabilidade

Museu do Fracasso 

Entrevista com Leandro Ramos

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György Konrád

Podcast de Fred Alecrim sobre erro